Investigação: gângsteres, jogadores e casino Crown. Como tudo deu errado.

Os métodos que a Crown usava para atrair grandes apostadores para gastar os seus milhões ...

O mundo de Jenny Jiang virou de cabeça para baixo quando a funcionária do Casino Crown foi detida e presa por violar a lei do jogo chinesa. Mas nem ela sabia a extensão do que sua empresa fazia.

Enny Jiang estava a descansar no seu apartamento, no subúrbio de Xangai, quando ouviu uma forte batida na porta.

Era quase meia-noite de 13 de outubro de 2016, e o “booker” de viagens do casino australiano e do grupo de hotéis Crown Resorts não esperava visitantes. Uma voz masculina chamou pela porta, dizendo que um cano de água no seu apartamento estava a causar infiltração no do seu vizinho.

Jiang ao abrir a porta deparou com quatro homens e uma mulher de expressões sombrias. Ficou claro que não eram canalizadores. Apresentaram cartões que os identificavam como agentes do China’s Ministry of Public Security, entrando de imediato no seu apartamento.

O interrogatório começou imediatamente: Qual era a sua posição na Crown, se tinha algum computador de trabalho em casa, telefones ou documentos da empresa.

Revistaram a sua casa e procederam à detenção de Jenny Jiang, 36 anos de idade. Foi levada para uma cela de detenção da polícia onde o interrogatório continuou.

O mundo de Jiang estava a ficar de cabeça para baixo. Era administradora de logística da Crown. Organizava viagem de pessoas. Não estava conscientemente envolvida na estratégia da empresa, apoiada por James Packer, de atrair apostadores do continente chinês para a Austrália.

Mas, junto com 18 colegas, foi envolvida numa operação do governo chinês contra as operações da Crown na China continental e estava a caminho da prisão.

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‘Mundo Wow’

A ex-funcionárioa da Crown Resorts, Jenny Jiang, foi presa na China em 2016. Crédito: 60 Minutes

Seis anos antes, quando Jiang foi contratada pela Crown, nunca tinha ouvido falar de Packer ou dos grandes apostadores que entregam ao gigante do casino as suas centenas de milhões de dólares em lucros.

Na verdade, quando ouviu o quanto alguns apostadores chineses da Crown podiam jogar sem parar em Melbourne e Perth, achou que estava enganada. Essas pessoas, conhecidas na indústria do jogo de fortuna ou azar como “baleias”, podem perder US $15 milhões em menos de uma hora e proporcionar uma faturação  US $1 mil milhões em apenas algumas viagens.

Jiang sentiu como se estivesse a observar um universo paralelo. Mais tarde, ela o chamaria de “mundo Wow”.

A Crown Resorts sempre insistiu que as suas atividades na China limitam-se a comercializar as suas instalações hoteleiras, campos de golfe, eventos desportivos e shows – não o jogo. Mas como Jiang estava a ser interrogada, era evidente que seus inquiridores suspeitavam que era mentira.

Eles queriam conhecer os métodos que a Crown usava para atrair grandes apostadores para gastar os seus milhões na Austrália. Acreditavam que a Crown estava a promover o jogo de fortuna ou azar e pagava grandes bónus à equipa de vendas para atrair grandes apostadores para os casinos da Crown em Melbourne e Perth.

Crown casino, Melbourne. Credit: Jason South

Sob a lei chinesa, ambas as atividades são ilegais.

Jiang veio a saber que as suas suspeitas estavam corretas. Mas seu conhecimento real era limitado. Como um mecanismo de autoproteção, aprendeu desde cedo, na sua relação com a Crown, a não abrir certas correspondências ou prestar atenção com quem a Crown negociava na China.

Essa ignorância também foi observada na Austrália, onde as leis chinesas de jogo não são bem conhecidas.

“A equipa de vendas da Crown foi instruída a dividir os jogadores chineses em quatro categorias: peixinhos, peixes-gato, barrigudinhos e baleias (minnows, catfish, guppies and whales), e oferecer-lhes presentes, “dinheiro da sorte” e viagens em aviões privados.”

Mas agora, mais de 18 meses depois de o último empregado da Crown sair de uma prisão chinesa, a grande muralha de sigilo entrou em colapso. Uma investigação de um ano da “The Age”, do “Sydney Morning Herald” e do “60 Minutes” na Austrália, Hong Kong, China continental e Macau – e com base em dezenas de fontes, incluindo membros da Crown, funcionários do governo e registos de tribunais e empresas – agora pode ser revelada a verdade sobre as operações da Crown na China.

A investigação mostra que a Crown se envolvia com operadores junket apoiados por sindicatos do crime organizado asiáticos, chamados “tríades”, incluindo o mais poderoso sindicato do tráfico de drogas no mundo.

Funcionário e ex funcionários do governo revelaram que a empresa de jogos de fortuna ou azar de 8,6 mil milhões de dólares em Melbourne ajudou a trazer criminosos através das fronteiras do país de uma forma que levanta sérias preocupações de segurança nacional.

Em comunicado, a Crown Resorts disse que, como houve uma ação coletiva de investidores em relação às detenções, não pôde comentar alegações específicas, embora tenha negado qualquer violação da lei chinesa e não tenha sido acusada de um delito na China e”refuta qualquer sugestão de que conscientemente expôs a sua equipa ao risco de detenção na China”.

O escritório de advocacia Maurice Blackburn apresentou uma ação coletiva após o preço das ações da Crown despencar depois das detenções. A Crown defende-se da acção que alega que a empresa sabia ou deveria saber sobre os riscos.

Em relação ás suas relações com operadores junket e indivíduos, a declaração da Crown acrescenta que “a Crown não comenta sobre as suas operações comerciais com indivíduos ou negócios específicos”. No entanto, tem um programa “abrangente” de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, “que está sujeito à supervisão regulatória da AUSTRAC“, disse o comunicado.

Um “papel passivo”: James Packer nega conhecimento das atividades da Crown na China. Credit: The Age

Através de um advogado, James Packer,  “insistiu” que “não tinha…conhecimento” sobre a conduta da empresa na China que levou ao julgamento dos funcionários.

Ele não era um executivo ou diretor da empresa na época das detenções (tinha renunciado como presidente da Crown Resorts em agosto de 2015 e como membro do conselho em dezembro daquele ano). Packer teve um “papel passivo” nos eventos, de acordo com seu advogado.

O comportamento da Crown é detalhado em informações confidenciais sobre a aplicação da lei e instruções regulamentares da polícia em toda a Australásia. Começando há uma década atrás, esses briefings foram progressivamente mais contundentes, levantando questões sobre os reguladores de jogos, agências de segurança estaduais e federais que são acusados de estarem a dormir ao volante.

Jenny Jiang não sabia de tudo isto enquanto se sentava na sua cela de Xangai com traficantes de drogas, prostitutas e carteiristas, efetivamente isolados do mundo exterior. O seu único contacto foi com o marido, o empresário americano Jeff Sikkema. Veio através de uma mensagem lida para ela pelo seu advogado.

“Querida,  amo-te”, dizia. “Eu sinto a tua falta. Estou a fazer tudo para te tirar depressa.”

Vice capital, Macau

A desventura da Crown na China começou há mais de uma década atrás com uma viagem que Packer fez a Macau.

O território compreende uma península e ilhas adjacentes na foz do Rio das Pérolas e tem a reputação de ser a capital regional indiscutível da opulência, vício e jogo.

Após o desembarque do ferry de Hong Kong no terminal de entrada, os viajantes foram recebidos por mulheres europeias magras vestidas com trajes vermelhos apertados, segurando cartazes que anunciavam uma exposição de carros da Ferrari no complexo de casino City of Dreams que a Crown uma vez possuiu parcialmente.

Os 38 casinos de Macau geram mais de 80 por cento da receita do território. Depois de escurecer, a antiga faixa de jogo brilha como um carnaval.

Os becos das ruas da Strip estão abarrotados de salões de massagens e lojas de penhor, exibindo relógios incrustados de jóias, com preços entre US $ 50 mil e US $ 3 milhões.

O ex-comandante do Royal Hong Kong Police Intelligence Department, Steve Vickers, disse que as casas de penhores de Macau estão entre os meios usados para ajudar os chineses a contrabandear ativos através da fronteira.

As leis de fuga de capitais da China proíbem qualquer pessoa de levar mais de US $3.000 do país, por viagem. Mas Vickers, agora presidente executivo da consultora de risco Steve Vickers and Associates, de Hong Kong, diz que três relógios sofisticados transportados nos pulsos dos companheiros de viagem de um jogador, empenhados após a chegada a Macau, podem render centenas de milhares de dólares. Vickers diz que as redes de lavagem de dinheiro de Macau permitem uma hemorragia para fora da China de “quantias surpreendentes de dinheiro”.

E no centro deste negócio sujo estão as salas de jogos high-roller de Macau.

Ex comandante do Royal Hong Kong Police Intelligence Department, Steve Vickers, agora diretor executivo da consultoria de riscos de Hong Kong Steve Vickers and Associates. Crédito: 60 Minutes

O presidente Mao acreditava que o jogo era um dos três males da sociedade, ao lado do ópio e da prostituição. Em 1950, ele proibiu-os no continente. Em Macau, todos os três florescem, mesmo depois do território ter voltado ao domínio chinês em 1999.

Centenas de cartões telefónicos invadem as ruas da cidade, exibindo fotos que anunciam prostitutas asiáticas e russas. E quando a Australian Crime Commission elaborou uma lista dos 50 criminosos organizados que causavam os maiores danos à Austrália, no início dos anos 2000, vários dos traficantes de drogas mais ativos e lavadores de dinheiro estavam a operar fora desse território chinês.

À margem da indústria do jogo de Macau, um grupo especializado de angariadores cresceu. Chamados de “junkets”, estes sindicatos fizeram o trabalho difícil, por vezes ilegal, de organizar excursões de jogo do continente para Macau. Eles podiam traficar o dinheiro ou fornecer enormes linhas de crédito na chegada.

Os seus clientes eram geralmente empresários chineses, políticos e autoridades locais cuja riqueza cresceu rapidamente nos últimos anos.

As tríades, que já estavam envolvidas em extorsão, tráfico de seres humanos, lavagem de dinheiro e drogas, rapidamente seguiram a rota do dinheiro. Alguns junkets estão limpos. Mas muitos provaram ser uma forma atraente das pessoas conseguirem dinheiro sujo no exterior. E quando se tratava de cobrar dívidas de jogo no continente – também ilegal sob a lei chinesa – as tríades estavam dispostas a usar a violência para coletar.

“Não se enviam os escuteiros para cobrar dívidas”, diz Vickers. “Essas pessoas são perigosas e têm a capacidade de rastrear os devedores.”

Os Junkets, a conexão da tríade e o Crown

Packer entrou no mercado de Macau em 2004, quando a Crown formou uma joint venture com Lawrence Ho. Filho do homem que ajudara o negócio pioneiro de junket, um homem de negócios octogenário simpatico e implacável chamado Stanley Ho.

Stanley Ho, o gigante dos casinos de Macau

Stanley Ho tem sido acusado de ter laços profundos com as tríades.

Um relatório de 2009 dos reguladores de jogo de New Jersey observou, “numerosas agências governamentais e reguladoras referenciaram as associações de Stanley Ho com empresas criminosas, inclusive permitindo que o crime organizado operasse e prosperasse dentro de seus casinos”.

Stanley Ho negou as afirmações. No entanto, os casinos dos EUA e da Austrália estão proibidos pelos seus reguladores locais de lidar com ele em virtude dessas supostas conexões.

Lawrence Ho distanciou-se publicamente do seu pai, concorrendo com ele no negócio do jogo. No auge do seu relacionamento com Packer, tratavam-se mutuamente por “irmão”. Estavam ligados pelos retornos impressionantes dos seus casinos asiáticos e experiência compartilhada de serem criados por um pai dominador.

Este relacionamento acabaria por chegar a uma fase difícil, mas durou o suficiente para proporcionar à Crown uma porta de entrada privilegiada para a indústria de junkets de Macau. Ali, a empresa australiana viu tanto os altos riscos quanto o potencial de faturação de milhares de milhões de dólares que os junkets poderiam gerar.

Lawrence Ho, que agora possui 20% dos Crown Resorts.

Jenny Jiang nunca esteve em Macau e sabe pouco sobre isso, salvo que a comida é boa e os hotéis são luxuosos. Ela não sabe nada sobre tríades e nunca conheceu alguém que consideraria perigoso.

Mas, trabalhando no seu escritório da Crown em Xangai, Jiang tomou conhecimento, por volta de 2014, de uma pressão do seu empregador para obter mais informações sobre a sua equipa chinesa. O que envolvia instruir a equipa de vendas da Crown a abraçar certos operadores de junket e incentivá-los a pensar na Austrália, e não em Macau, quando organizassem viagens para clientes high-roller.

Jiang, foi o primeiro funcionário da Crown a ser preso em 2016 que quebrou o silêncio, disse que a equipa de vendas foi instruída para dividir os jogadores chineses, que a Crown queria, em quatro categorias: peixinhos, peixes-gato, barrigudinhos e baleias. Para atraí-los, a equipa poderia oferecer presentes de luxo, dinheiro de jogo gratuito conhecido como “dinheiro da sorte” e uso gratuito de aviões particulares e suítes de hotel.

Segundo fontes, ás maiores baleias foram oferecidas ajudas que garantiam a imigração para a Austrália, a escolarização dos seus filhos na Austrália e investimentos imobiliários em Melbourne e Sydney.

                          Como trabalham os junkets

Fonte: The Age

As fontes confirmam que a equipa de vendas da Crown recebeu ordens para procurar agressivamente potenciais apostadores, vencendo casinos rivais e atingir alvos para que os jogadores chineses canalizassem milhares de milhões de dólares para os casinos australianos da Crown. Se um operador de junket em particular pudesse ajudar, a equipa de vendas chinesa seria orientada a fazer parceria com ele.

“Os altos cargos de gestão continuaram a pressionar cada vendedor [empregado] para atender mais clientes, obter mais negócios”, lembra Jiang. Ela diz que a equipa de vendas que não adotou a estratégia foi demitida.

Aqueles que permaneceram começaram a confidenciar, uns aos outros, sobre os riscos que corriam ao desafiar as leis chinesas.

“Assumimos o risco, ao fazer este trabalho. E não sabemos o que vai acontecer no dia seguinte”, diz Jiang.

Havia outros riscos também. Mesmo uma análise superficial sugere que muitos dos encontros com os quais a Crown estava a fazer parcerias tinham associações duvidosas, algumas das quais poderiam ter sido descobertas através de uma simples pesquisa no Google.

Uma delas, com o Neptune group, sobre o qual a agência internacional de notícias Reuters, em 2010, tinha revelado ligações financeiras verificáveis com Cheung Chi-tai, um suposto líder da Wo Hop to triad. Cheung foi nomeado como um “chefe de tríade”, durante o julgamento de 2009, de cinco pessoas acusadas de conspirar para assassinar um traficante no casino Sands Macau.

Mas esses laços criminosos empalidecem em comparação com alguns dos outros parceiros de junket da Crown.

“A empresa”

Antes de viajarmos para Macau e Hong Kong para esta história, vários policiais australianos deram o mesmo aviso confidencial: evite aproximar-se de certos operadores porque, nas palavras de um, “no seu próprio território, eles são perigosos e intocáveis”.

No centro da advertência havia um conglomerado tríade chamado “The Company” e seus associados.

The Company” é um sindicato internacional de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, identificado pela primeira vez pelo FBI como parte de uma operação de 1996, com o nome de código “Sunblock”. Um ex-oficial da Australian Federal Police estima que este sindicato foi responsável por até 70 por cento de todas as drogas traficadas para a Austrália nas últimas duas décadas e “causou mais danos à Austrália do que qualquer outro sindicato do crime”.

A AFP e a Australian Crime Commission cortam periodicamente os tentáculos das suas operações na Austrália, mas os grandes chefes da The Company permanecem intocáveis em Macau e Hong Kong, fora do alcance dos investigadores ocidentais.

Enquanto isso, eles criaram formas de transferir os lucros do tráfico de drogas para fora da Austrália.

Um canal utilizado foi através de um consultor financeiro de Melbourne, Roy Moo. Em 2012, um membro da The Company e Moo fecharam um acordo pelo qual ele lavaria o seu dinheiro para Hong Kong, embora Moo negasse saber de onde vinha o dinheiro. De acordo com os registos do tribunal, o casino Crown em Melbourne foi fundamental para esse arranjo.

Roy Moo em imagens de vigilância prestes a pegar uma bolsa de dinheiro de outro homem por lavagem no casino Crown em Melbourne.

O acordo dependia inteiramente do facto de Moo ter sido autorizado pela Crown para trabalhar como representante de um operador de junket na Ásia. Isto permitiu que usasse a Crown para transferir fundos para contas bancárias no exterior, supostamente como parte de sua operação de jogos de alta tecnologia.

Quando investigadores da polícia federal questionaram Moo, em setembro de 2013, sobre as imagens de CCTV que o mostravam a passar maços de notas de 50 dólares, de um saco de plástico para um funcionário da Crown, ele explicou que a Crown oferecia aos seus junkets um serviço financeiro com todas as características de uma operação bancária subterrânea.

O dinheiro totalizava US $969.000 e era o produto do tráfico de drogas na empresa em Melbourne e Sydney.

O dinheiro, disse Moo num registo de entrevista reslizado por um juiz vitoriano, em abril, para o The Age, o Sydney Morning Herald e 60 Minutes, foi-lhe entregue “no lobby do Crown Casino … num saco de compras que também continha um pedaço de papel com os detalhes da conta ”em Hong Kong, para onde o dinheiro deveria ser encaminhado.

Este “dinheiro negro” foi dado a Moo “em virtude de seus contactos no Crown Casino, confiança mútua, e [porque] foi mais fácil do que usar um banco”.

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Roy Moo, à direita, em imagens de vigilância, empilhando dinheiro no balcão do casino Crown em Melbourne. Esta gravação foi apresentada em tribunal.

Moo foi preso no final de 2013, mas foi uma vitória pírrica para a polícia. Múltiplas fontes regionais de aplicação da lei dizem que os acontecimentos levaram a empresa a contar com a sua própria junket interna, batizada com o nome de uma cadeia de restaurantes, hot pot de Macau. O junket Hot Pot foi licenciado prontamente pela Crown. Todos os dólares que o grupo dispusesse para jogar nas mesas australianas do casino, a Crown pagaria uma comissão.

Esse arranjo representou uma verdade extraordinária: a Crown estava efetivamente a processar pagamentos a um sindicato do crime organizado. Para a Empresa, foi um lucrativo empreendimento paralelo aos seus principais empreendimentos criminosos.

Numa única viagem da China à Austrália, em agosto de 2015, organizada pela Hot Pot Junket, vários chefes chave do sindicato da tríade voaram num avião particular para o casino de Perth, segundo fontes regionais. Ao longo de alguns dias, movimentaram US $800 milhões em salas VIP. Um recibo de pagamento divulgado pela The Age, The Sydney Morning Herald e 60 Minutes revela que a organização da Hot Pot recebeu US $232.000 em comissões da pela organização de viagens à Crown no exercício financeiro de 2016.

De acordo com fontes oficiais em toda a região, alguns dos membros e associados da Companhia afiliam-se finalmente à maior e mais bem sucedida operadora de junkets de Macau, a SunCity. Isto coincidiu com uma diretiva do gestor sénior da Crown para a equipa chinesa da Crown para também se aproximar da SunCity.

O maior junket de Macau estava prestes a tornar-se parceiro de negócios da Crown.

Lobos em Wall Street: a cultura de vendas da Crown

Os documentos judiciais chineses obtidos pela The Age, Herald e 60 Minutes sugerem a escala extraordinária da operação high roller chinesa da Crown.

No exercício financeiro de 2016, os colegas de Jenny Jiang atenderam apenas duas cidades chinesas – Xangai e Wuhan – o que gerou faturação de US $15 mil milhões nos casinos australianos da Crown.

Jiang diz que os números foram alcançados por meio de uma abordagem Wolf-of-Wall-Street efetuada pela Crown que prometeu à equipa de vendas enormes bónus e viagens para Las Vegas, se atraíssem high rollers para a Austrália.

Algumas equipas de vendas (diferentemente das equipas administrativas, como a que Jiang integrava, que não recrutavam jogadores) eram pagas por meio de uma percentagem do volume de negócios de jogos de fortuna ou azar que geravam. Os arquivos judiciais revelam que vendedores bem sucedidos poderiam ganhar US $365.000 por ano, um montante enorme na China.

Tudo isso era ilegal e a Crown, diz Jiang, estava efetivamente a incentivar os seus funcionários a infringir massivamente as leis de jogo chinesas em escala industrial. Sem os grandes bónus e as férias de luxo oferecidas à equipa de vendas, “estes não terão coragem de continuar a fazer isso durante anos”, diz Jiang.

No final de 2016, os funcionários da Crown foram presos em massa. Não é que não tivessem sinais de aviso: meses antes, 15 trabalhadores de casinos coreanos foram presos na China por promover jogos de fortuna ou azar.

Depois do aviso de 2015, diz Jiang, os seus colegas não estavam mais nervosos. Eles estavam assustados.

No entanto, nos bastidores, a Crown estava preocupada. Fontes confirmaram que aconselhou a sua equipa chinesa a obter vistos de trabalho estrangeiros para dar a impressão de que não estavam a trabalhar na China. Um gerente sénior, Michael Chen, que desde então deixou a Crown, garantiu aos funcionários que a sua empresa estava a acompanhar a situação através dos seus contactos no Ministry of Public Security.

Ele disse à equipe chinesa da Crown para encontrar jogadores em grupos menores, de modo a voar sob o radar.

Pouco antes da polícia bater à sua porta, o Crown Casino informou os funcionários sobre o que fazer no caso de investigações policiais.

“Eles disseram-nos para não cooperar”, diz Jiang.

Uma semana depois das prisões terem sido efetuadas, o presidente da Crown, Rob Rankin, ex-banqueiro de investimentos, reuniu com os acionistas da empresa em Perth.

“Estamos orgulhosos de muitos anos de registo de conformidade desta empresa”, disse ele. “Agora não é a hora nem o lugar para comentar as especificidades deste incidente em particular … mas haverá um dia em que deveremos e faremos.”

Mesmo hoje, quase dois anos após o último funcionário ser libertado da cadeia, a Crown não forneceu uma declaração detalhada sobre o incidente, dizendo apenas que desde então havia reformulado a sua presença na Ásia – adotando uma abordagem mais “conservadora”, reduzindo o marketing direto. e confiando mais em grandes apostadores vindo através de operadores turísticos de terceiros. A Crown também disse estar “satisfeita por todos os nossos funcionários terem sido libertados e reunidos com as suas famílias e entes queridos”.

Uma horrível memória

A cela para onde Jiang foi levado após sua prisão, em 13 de outubro de 2016, abrigou 10 outros prisioneiros.

“Ali estão ladrões, traficantes de drogas, todos os tipos de pessoas diferentes”, diz ela.

Tinha um duche frio para uso uma vez por semana e instalações sanitárias compartilhadas sem privacidade. As luzes nunca foram desligadas. Dormiu no chão com um único cobertor.

Quando Jiang recorda o seu tempo na prisão, os seus olhos enchem-se de lágrimas.

“É uma lembrança realmente horrível. O mais triste é que não conseguimos estar com a família. Não ouvimos a voz dos nossos parentes e não sabemos o quanto eles se preocupam connosco. ”

Encontrou refúgio em mensagens passadas clandestinamente pelo marido. E quando, depois de quatro semanas, chegou a notícia de que seria libertada sob fiança, sentiu um alívio absoluto. Na sua primeira noite como uma mulher livre, tudo o que ela queria era um banho quente e deitar-se numa cama de verdade.

Quando ela o fez, descobriu que não conseguia dormir.

“Por muito tempo eu simplesmente não consegui dormir à noite porque me preocupava com o facto de que as pessoas poderiam voltar a minha casa e tirar-me da minha família.”

Jiang foi libertada vários meses antes dos seus outros colegas detidos porque não recrutou jogadores diretamente. Mas no ano seguinte, em junho de 2017, foi considerada culpada de crimes de jogo de fortuna ou azar junto com os outros 18 funcionários da Crown.

Lembra-se de ter sido envolvida pela vergonha, afastando-se dos amigos e sentindo-se subjugada com o estigma da mancha criminosa no seu registo. Sentiu-se compelida a pedir desculpa ao marido.

“Porque casou comigo, uma esposa criminosa. Eu senti-me muito envergonhada com isso.”

Após as prisões, a Crown fechou o seu escritório na China. Ofereceram a Jiang um pagamento de US $60.000, com a condição de ficar quieta. Recusou-se a aceitar o dinheiro. Diz que a Crown oferece empregos para os seus funcionários titulares de passaportes australianos, mas não para os funcionários chineses.

Dois anos depois de um tribunal chinês ter proferido os veredictos criminais contra os funcionários de Jiang e da Crown, ela está a recuperar a sua vida. Ainda assim, na maioria dos dias, pensa na sua prisão.

Enquanto os seus funcionários estavam presos, a Crown trabalhou nos bastidores com autoridades australianas para assegurar a sua libertação. Packer, que não ocupou um cargo executivo na Crown desde 2012 e não era diretor na época, emitiu um comunicado dizendo que estava “profundamente preocupado” com o bem-estar dos trabalhadores.

“A Crown fará o que estiver ao seu alcance para apoiar os seus funcionários e as suas famílias neste momento difícil”, disse ele.

Ele insiste que não tinha conhecimento dos detalhes das operações comerciais da empresa na China.

Casino Barangaroo da Crown, em construção. Crédito: Ryan Stuart

Jiang acredita que a Crown colocou o lucro antes de tudo. Diz que a empresa tratou a sua equipa chinesa como um “guardanapo usado que jogou no caixote do lixo”.

Em maio deste ano ela assistiu da China à venda de Packer da metade da sua participação na Crown a Lawrence Ho por US $1,76 mil milhões. Também assistiu ao progresso do hotel e casino Crown’s Barangaroo, que deve ser inaugurado em 2021.

Crucial para o sucesso deste novo casino serão os grandes apostadores da China.

Fontes e Consultas:
The Age | Sydney Morning Herald | 60 Minutes Australia | The Advertiser | Weekly Times | The Guardian | SBS News | ABC News | The New Daily
Observatório do Jogo Responsável – Portugal

   

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