O Caso Neymar e como ele afeta a Indústria do Jogo

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A cada ano, o mercado de transferências de verão geralmente traz um caso que atrai toda a atenção.

Esta realidade não é exclusiva do futebol ou da Liga espanhola, basta perguntar aos adeptos da NBA. No entanto, “o caso Neymar” superou todas as expectativas e eclipsou qualquer outro assunto no que se refere a notícias desportivas. Vamos analisar o que aconteceu do ponto de vista do seu impacto sobre apostas e apostadores.

Novelas como a protagonizada por Neymar neste verão estão longe de terem apenas impacto junto dos adeptos dos clubes envolvidos nestas “transferências”, PSG e FC Barcelona neste caso. A comunicação social, os patrocinadores, as instituições desportivas, a organização e regulação de competições de futebol e os protagonistas de opinião pública em torno dos capitais envolvidos nestes negócios são protagonistas e intervenientes indispensáveis para analisar as implicações deste fenómeno.

Uma mudança tão radical como aquela que representa um jogador da craveira de Neymar deixar um clube como o FC Barcelona para integrar o Paris Saint Germain, também afeta diretamente o setor das apostas desportivas. Vamos destacar aspetos relevantes que tanto o apostador como o próprio setor (operadores) podem recolher após a confirmação desta complexa transferência da estrela brasileira.

O mercado de apostas durante as transferências de verão

Uma das preocupações das casas de apostas, e também dos adeptos, é o acentuado decréscimo da oferta de apostas desportivas apelativas durante o verão. Esta tendência é ainda mais marcante em anos onde não ocorrem Campeonatos do Mundo ou da Europa, como sucede precisamente em 2017.

Aos poucos, o dar maior visibilidade ao mercado de transferências permitiu que os adeptos de futebol encontrassem um novo estímulo na hora de apostar. Esta tendência tornou-se extremamente popular no Reino Unido coincidindo com o boom do campeonato Inglês nas audiências. Jogadores como Beckham, Owen, Rooney e Gerrard têm mantido este excitante mercado devido às especulações e rumores sobre seus próximos clubes.

No Reino Unido, as apostas com uma forte componente de “diversão” vieram também popularizar os mercados secundários em torno das contratações de jogadores e treinadores, sendo comum encontrar mercados muito ativos na relação controversa entre personalidades do futebol, como José Mourinho, Pep Guardiola ou Arsene Wenger, somando a cada temporada cada vez mais interesse e protagonistas.

O que aconteceu este verão surpreendeu a indústria pelo protagonismo de uma equipa como o PSG  que, para convencer Neymar,  não teve de escamotear as suas intenções nem de lidar com o potencial interesse de outros clubes.

A liquidez no mercado de transferências e o poder da informação

Os meios de comunicação desportivos e generalistas seguiram a saga e conseguiram trazer para a superfície temas que pareciam esquecidos para explicar o aparente descontentamento de Neymar no FC Barcelona. A enésima renovação de Messi e um contrato que triplicaria o de Neymar, o desejo de liderança do brasileiro, o papel do seu pai, o dinheiro do Qatar …

Muitos destes temas servem para antecipar possíveis movimentos no mercado de transferências e promover os mercados de apostas que mencionámos anteriormente. Especialmente no Reino Unido, os operadores promovem explicitamente este tipo de mercados e tentam motivar os seus clientes a participar nestes grandes debates sobre que camisola vestirá um determinado jogador.

Em Espanha, a possibilidade de apostar no futuro da equipa de Neymar tem estado presente desde praticamente o mesmo dia em que o campeonato chegou ao fim, no início de junho. Obviamente, naquele momento a atenção estava focada em Cristiano Ronaldo, cujo futuro parecia longe do Bernabéu depois de algumas análises que mostravam a insatisfação do português com a sua situação fiscal, com um julgamento pendente no qual ele seria acusado de defraudar 14 milhões de euros.

Assim, muitos adeptos do desporto, seguidores da atualidade do futebol registam informação suficiente para apostar nestes mercados que cada vez contam com maior protagonismo no verão – e também no inverno,  quando abre o mercado de transferências em competições como La Liga.

O perigo dos patrocínios

O caso Neymar serve para explicar a razão porque os operadores de apostas desportivas – que atualmente geram cerca de 34% das receitas totais dos clubes da primeira divisão da Liga Espanhola, do total de equipes de receita Primeira Divisão do campeonato espanhol, são obrigados a prestar muita atenção à envolvência  e se torna um grande desafio confiar a sua imagem aos clubes de futebol. Nós vimos como em apenas uma semana – no mês de junho – a Cristiano Ronaldo que deixou de ser considerado o melhor jogador da história do clube branco, para se converter num candidato claro a abandonar o clube com um destino incerto. Com Neymar, uma situação algo semelhante: de ser considerado o substituto natural de Mesi, como ícone barcelonismo,  para se converter no jogador mais odiado pelos adeptos catalães desde o tempo de Figo.

Estamos, portanto, confrontados com um setor – o futebol profissional – que vive uma realidade complexa. Com países emergentes neste mercado como a China, Estados Unidos ou os Emirados Árabes Unidos, que são capazes de adquirir capital acionista e passes de atletas por valores astronómicos , dirigindo e controlando os destinos dos clubes de futebol mais importantes do continente europeu e, fruto disto, gerar maior incerteza sobre o futuro de jogadores , equilíbrio das competições e sustentabilidade dos próprios clubes.

Este cenário não se afigura particularmente favorável a contratos de longo prazo. A Betfair, casa de apostas oficial do FC Barcelona, supõe-se que esteve atenta aos movimentos do jogador brasileiro e deseja que os 222 milhões de euros que entrarão no FC Barcelona venham a servir para reforçar a equipa com jogadores que possam ajudar a melhorar o clube em que depositou a confiança e investiu para projetar a sua marca à escala global.

Os casos de Kanoute e Luis Suárez com a 888.com

Kanoute, o avançado do Sevilla FC na sua época de maior sucesso e títulos, protagonizou uma controvérsia curiosa que o caso Neymar pode ajudar a recordar. O jogador do Sevilha, muçulmano, recusou-se a usar a publicidade da 888.com na última fase da sua carreira, fruto das suas convicções religiosas. Como resultado, durante pelo menos meia temporada, a publicidade da 888 desapareceu da sua camisola.

Nos Estados Unidos, este tipo de questões são muito relevantes e marcas como a Nike forçaram os seus patrocinados a renunciar a manifestação pública da sua fé. Curiosamente, Neymar pertence a uma igreja reformada batista brasileira, não teve inconveniente em mostrar a sua fé em Jesus Cristo em momentos tão especiais como a celebração da final da Champions League.

Recordemos que Neymar foi embaixador da PokerStars por dois anos, e se bem que o patrocinador atual do PSG é a Fly Emirates, uma situação com estas características, em que uma equipa onde o seu capital e o seu presidente são oriundos do Qatar – um país onde o Islão é a religião do Estado – poderia alterar a forma como a imagem de Neymar se projeta no mercado global. O que poderia pensar a PokerStars se o contrato com o brasileiro estivesse em vigor? Que impacto receberia a sua marca no mercado espanhol? E entre os adeptos do Barcelona?.

Recordamos, por fim, como depois da famosa dentada de Luis Suarez a Chiellini na Itália-Uruguai no Mundial do Brasil em 2014, além da sanção de 80.000 € da Adidas ao seu embaixador (Suarez), a 888.com que já o tinha apresentado embaixador da marca para os próximos dois anos, foi forçada a rescindir o seu contrato

Consulta: infoplay

A RicardinaA RICARDINA
Agosto 2017
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