Covid-19: Com quedas nas receitas, jogo online pede apostas em eSports e jogos virtuais

Regulador diz que novas apostas além das previstas só com mudança na lei, alteração que não é “oportuna” de momento.

Há operadores à espera de impacto de 90% nas apostas desportivas este mês. Regulador diz que novas apostas além das previstas só com mudança na lei, alteração que não é “oportuna” de momento.

Mesmo com os portugueses recolhidos em casa por causa da Covid-19, a passar mais tempo à frente dos smartphones e dos computadores e mais expostos a campanhas publicitárias, os operadores de jogo online estão a viver semanas difíceis. É que se as medidas de combate à pandemia poderiam criar condições para aumentar os potenciais utilizadores destas plataformas, também fecharam a torneira da oferta ao cancelar a generalidade das provas desportivas em que se podia apostar.

O retrato é transversal às empresas que operam no País e que a EXAME contactou: número e volume de apostas desportivas com quedas consideráveis nas últimas semanas, depois do cancelamento de vários campeonatos; o foco redirecionado para o negócio dos casinos digitais na tentativa de compensar essa redução de receitas; e apelos ao regulador para que seja possível contemplar novas ofertas aos apostadores debaixo das atuais licenças em vigor.

Em março, a Betclic contabilizou uma queda de entre 70-75% nas apostas desportivas registadas na sua plataforma. E a empresa, que em 2016 recebeu a primeira licença de jogo online em Portugal, não fecha a porta a que o impacto seja ainda maior se a atual situação se mantiver. No mês de abril, essa possibilidade pode levar a uma redução de 90% a 100%, “visto que ainda há competições que [ainda] não foram canceladas,” sustenta Miguel Domingues communication manager da empresa.

Sem quantificar, A Nossa Aposta relata que houve jogadores a reduzir ou a deixar de apostar e que a suspensão das competições afetou “bastante” o número e volume de jogadas. Gonçalo Sousa, diretor de marketing daquela empresa do grupo Cofina, explica que toda a estratégia da empresa para 2020, que tinha sido desenhada em torno do europeu de futebol previsto para este ano, teve de ser reformulada com o adiamento deste campeonato para o verão de 2021. Para compensar a descida nas apostas desportivas, o foco passou a estar no negócio de jogos de fortuna ou azar (como o casino online), tendo sido reforçada a sua divulgação.

Operadores querem apostas sobre desportos virtuais

Com um mês já fortemente afetado e um trimestre a começar sem melhorias no horizonte, é ainda cedo, no entanto, para medir o impacto que as quedas destas semanas terão nos números totais de 2020. Olhando para os números do ano passado, o primeiro semestre representou menos de metade (45%) do volume total apostado em jogo online. E embora as apostas desportivas movimentem cinco vezes menos dinheiro do que os jogos de fortuna ou azar (onde se incluem jogos de máquinas, póquer ou roleta), a receita bruta gerada pelas duas modalidades no final do ano é praticamente semelhante.

Sem margem para compensarem de outra forma, no imediato, as quebras de receitas provocadas pela Covid-19, os operadores viram-se para alternativas. Nomeadamente pedindo às autoridades que abram o leque de apostas possíveis a outras modalidades como os eSports ou os virtual sports, competições simuladas que decorrem em ambiente online usando softwares sofisticados. Recentemente, o estado norte-americano do Nevada (onde se situa Las Vegas, a capital dos casinos que há duas semanas estão fechados por causa da pandemia) aprovou a disponibilização deste género de apostas ao abrigo das apostas desportivas, para o jogo Counter-Strike: Global Offensive.

“A indústria de desportos virtuais é uma indústria real e tem vindo a crescer. As pessoas estão a apostar em desportos virtuais. É um computador a jogar contra outro,” descreveu recentemente Jason Ader ao MarketWatch. O presidente da SpringOwl Asset Management, uma empresa de investimentos sediada em Nova Iorque, estima que o volume de apostas neste domínio esteja a crescer 19% ao ano. Mesmo que também estas competições, que normalmente são realizadas em eventos com grandes aglomerações de pessoas, também estejam a ser afetados pelas medidas de combate à pandemia.

Alteração à lei não é “oportuna”, diz regulador

À EXAME, o Serviço de Regulação Inspeção de Jogos (SRIJ, organismo do Turismo de Portugal) reconhece que as dificuldades criadas pelo adiamento e cancelamento de grande número de eventos e competições desportivas deixaram os operadores com “uma oferta de apostas limitada”. Mas diz que a lei condiciona a sua atuação, bem como viabilizar a exploração de novos tipos de jogos e apostas, “permitindo apenas autorizar novos tipos de jogos de fortuna ou azar (aqueles que assentam num gerador de números aleatórios)”, mas não outro tipo de apostas além das previstas na lei. “Para que essa autorização seja possível, será necessário efetuar uma alteração legislativa o que, no contexto atual, não se afigura oportuno,” refere fonte do SRIJ.

Um entendimento que a Betclic respeita, mas não sem antes apontar países onde os reguladores autorizaram a exploração das apostas em eSports, enquanto desportos federados com competições oficiais, no âmbito da licença de apostas desportivas. Gonçalo Sousa também veria essa inclusão com bons olhos: “Daria uma oferta mais alargada aos nossos jogadores neste momento e iria reduzir certamente o impacto da suspensão das principais competições desportivas,” defende.

Desde que a atividade foi legalizada há quatro anos, o jogo online tem crescido continuamente em Portugal. No ano passado o volume apostado subiu 42% em relação a 2018, permitindo às entidades exploradoras arrecadar €215,4 milhões em receita bruta e enviar €94,8 milhões em Imposto Especial de Jogo Online (IEJO) para os cofres do Estado. No total, apostaram-se quase €3.500 milhões, a maior parte em jogos de fortuna ou azar. Este ano os números deverão ser afetados no que diz respeito ao volume de apostas desportivas à cota, refletindo-se também na receita do IEJO, antecipa o SRIJ, que diz não ser ainda possível prever os efeitos reais que a pandemia terá na atividade.

Despedimentos fora da equação

Apesar dos sinais internos de que o trabalho de recuperação da economia começará em junho, quando for ultrapassada a fase mais crítica da pandemia, os operadores continuam vigilantes. Miguel Domingues diz que a Betclic está a avaliar “serenamente” as medidas a tomar semana a semana, esperando que a normalidade regresse em “alguns meses”. Se a situação se mantiver na segunda metade do ano, pondera reavaliar e ajustar a estrutura de custos onde, sublinha, “não se inclui o custo com pessoal”. A Nossa Aposta afasta a possibilidade de recorrer a lay-off ou redução de pessoal, uma vez que a estrutura de custos “baixa e eficaz” permite responder à “previsível baixa de receitas,” diz Gonçalo Sousa.

Betclic, A Nossa Aposta e Betano estão entre as 13 entidades autorizadas a explorar jogos e apostas online em Portugal. A EXAME contactou ainda a 888 e a Estoril Sol Digital, mas não foi possível obter respostas até ao momento. Atualmente, de acordo com as informações no site do SRIJ, estão atribuídas 22 licenças àquelas 13 entidades, entre apostas desportivas à cota (em 26 modalidades possíveis) ou jogos de fortuna e azar.

Fonte: Exame

 

Observatório do Jogo Responsável – Portugal

   

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