Cada português que joga raspadinhas gasta cerca de €450/ano

Apelo a nova regulamentação) ou diminuir os pontos de venda das raspadinhas...

Cerca de 30% da população portuguesa compra raspadinhas. Trata-se do segundo jogo mais frequente em Portugal, a seguir ao Euromilhões, e o único que é mais jogado por mulheres do que por homens.

Cerca de 30% da população portuguesa compra raspadinhas, o que significa que cada português que joga gasta, em média, cerca de 450 euros por ano. Trata-se do segundo jogo a dinheiro mais frequente em Portugal, só atrás do Euromilhões. Os dados da prevalência, relativos ao período de 2016/2017, foram avançados ao Expresso por João Goulão, diretor do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Substâncias), que cita um estudo elaborado pela entidade que dirige, e são cruzados com o valor das receitas da Santa Casa da Misericórdia no mesmo período.

De acordo com o mesmo estudo do SICAD, intitulado “Jogo, Internet e Outros Comportamentos Aditivos” e realizado em 2019, a prevalência é maior entre mulheres (33,5%) do que homens (27,7%), tratando-se a raspadinha, aliás, do único jogo a dinheiro (os chamados jogos da fortuna ou azar) que é mais jogado por mulheres do que por homens. No caso do Euromilhões, por exemplo, o mais jogado em Portugal, por cerca de 36% da população, essa proporção é de 39,8% (homens) para 32,9% (mulheres), e no Totobola ou Totoloto, terceiro jogo mais jogado, é de 15,1% para 9,3%.

INVESTIGADORES APELAM A NOVA REGULAMENTAÇÃO

De acordo com um estudo publicado na quinta-feira pela revista internacional “The Lancet Psychiatry”, da autoria de Daniela Vilaverde e Pedro Morgado, investigadores da Escola de Medicina da Universidade do Minho, Portugal é o país da Europa onde se gasta mais dinheiro em raspadinhas.

Só em 2018 os portugueses gastaram quase 1,6 mil milhões de euros neste jogo – são mais de quatro milhões de euros por dia (há casos de portugueses a gastarem 500 euros em 24 horas). Trata-se de um número elevado, ainda mais se comparado com os dados de 2010, em que foram gastos 100 milhões de euros neste jogo, e com países como Espanha (cerca de 600 milhões de euros em 2018).

Pedro Morgado dizia que uma das razões para estes números tem que ver com o facto de se tratar de um jogo em que se sabe imediatamente o resultado, o que “gera um maior potencial de vício e de adição” devido aos mecanismos de gratificação imediata aqui envolvidos, e João Goulão chama a atenção precisamente para o mesmo.

“A raspadinha tem, de facto, um grande potencial para criar compulsão porque o resultado é imediato e, quanto mais imediato o resultado, maior a probabilidade de a pessoa insistir e passar os limites que deveria ter definidos para si própria”, diz o médico ao Expresso, que aponta também como razão para estes números a “publicidade” que é feita ao jogo e que apresenta “uma possibilidade de ter proveitos que não corresponde à realidade”.

AS SOLUÇÕES? “MENOS PUBLICIDADE” OU PUBLICIDADE MAIS CONTIDA SOBRE OS GANHOS, MAS SOBRETUDO “MAIS EDUCAÇÃO E LITERACIA”

João Goulão diz não ter registo de casos de jogo patológico associado às raspadinhas, o que não significam que eles não existam, uma vez que isso poderá estar relacionado com a forma “genérica” como os casos são referenciados. E o que fazer para evitar que haja casos de adição como os descritos pelos autores do estudo? Desde logo, havendo “menos publicidade” a este jogo ou publicidade mais contida no que diz respeito aos ganhos, mas também “mais literacia e educação da população, para que tenha noção de que são baixas as probabilidades de resolver os seus problemas financeiras recorrendo a estas práticas”, diz João Goulão, para quem parece complicado criar mecanismos de autoexclusão semelhantes aos que existem nos casinos (como sugeriu Pedro Morgado, numa entrevista em que apelou a nova regulamentação) ou diminuir os pontos de venda das raspadinhas. “Isso não me parece viável, embora possa pensar-se num mecanismo que permite ao jogador ser alertado no local de venda das raspadinhas, para o número de cartões já adquiridos”.

Embora se saiba que são as mulheres quem mais joga raspadinhas, é difícil traçar um perfil do jogador-tipo mais detalhado do que isso, diz ainda João Goulão, esclarecendo que “o jogo, no geral, está associado ao consumo de outras substâncias” e que há “pessoas com uma maior propensão para o mesmo, devido à sua personalidade e à influência de fatores educacionais, ambientais e outros”.

Fonte: Expresso

Observatório do Jogo Responsável – Portugal

   

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